Número 63 ─ Preguiça

Buenos dias Matosinhos e sejam bem-vindos a mais um texto, o penúltimo desta subsérie d’O Gajo Que Diz Coisas de análise aos sete pecados capitais, e não podia escolher melhor dia para falar deste pecado, a preguiça, visto que hoje não fiz nada, apenas uma sesta. A Wikipedia define este pecado como: “Do latim acedia. A pessoa com este pecado capital é caracterizada pela Igreja Católica como alguém que vive em estado de falta de capricho, de esmero, de empenho, em negligência, desleixo, morosidade, lentidão e moleza, de causa orgânica ou psíquica, que a leva a uma inatividade acentuada.”, resumindo não existem alentejanos no céu.

A definição deste pecado deixa-me um pouco pensativo, porque parece que há aqui um intruso. Se as palavras negligência e desleixo têm uma conotação algo negativa, nem tudo o que é feito com lentidão é mau. Se Deus for contra a lentidão, então o sexo só pode ser rapidinha em missionário que de resto são posições do diabo.

No primeiro parágrafo deste texto eu falei de um dos maiores preconceitos relacionado com a lentidão, mais concretamente, os alentejanos. Contudo existe um preconceito mais fundamento envolvendo a lentidão, os funcionários públicos. Se uma das imagens mentais criadas ao longo dos anos é de o típico alentejano sentado debaixo do chaparro, imagens criadas por programas como os míticos Malucos do Riso, a imagem do funcionário público foi fomentada por anos e anos de práticas de trabalho à velocidade de um caracol. Ninguém foi a uma repartição de Finanças e disse a frase: “Olha hoje fui às Finanças, foi um instante e o funcionário foi impecável”. Antes que comece a chover comentários de sindicatos e mais não sei o que, de certeza que existem funcionários públicos competentes e rápidos, contudo a maior parte desta classe trabalhadora tem a mesma rapidez que o William Carvalho possui em campo. Contudo, acho que a velocidade das pessoas nestes locais é proporcionada por uma panóplia de fatores, psicológicos e sociais que fazem transparecer esta velocidade reduzida: por um lado a imagem psicológica do cliente. Ninguém vai a estes locais de livre e espontânea vontade, o que faz com que a perceção do tempo despendido no mesmo em espera seja muito maior. Vejamos, se perderemos uma hora nas Finanças é extremamente negativo, porque despendemos tempo para algo que não queremos fazer, contudo esperar uma hora na fila para um festival é normal/ natural porque a espera é para algo que sentimos prazer a fazer. Outro fator que condiciona a lentidão e a negligência laboral dos funcionários públicos é a evolução na carreira. Neste momento as carreiras dos mesmos estão congeladas, mas anteriormente a evolução era feita através dos anos de trabalho, ou seja, o trabalho em si da pessoa é irrelevante para o seu futuro profissional. Assim, sem existindo meritocracia, as pessoas estão-se marimbando se fazem o trabalho rápido ou lento, bem ou mal, limitando-se assim a cumprir um horário.

E, tendo em conta o tema preguiça, e a mesma como disse me atacou de forma selvagem hoje, me despeço, mas não sem antes falar de mais um novo pecado mortal, a coscuvilhice. A coscuvilhice tem uma imagem mental associada às velhas debruçadas na janela. As cuscas e os cuscos têm mais prazer em comentar a vida dos outros do que viver a delas, o que é uma marca clara que a vida dos mesmos será extremamente desinteressante. Graças aos cuscos e as cuscas temos duas indústrias distintas que se alimentam do pecado da coscuvilhice, os reality shows (já abordados neste blogue) e as revistas cor-de-rosa (que um dia será explorado em pormenor).



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