Número 142 – Goodbye mom
Eu começo todos os textos da mesma forma. O olá queridos e estimados leitores, contudo, hoje vou ter de começar de maneira diferente. Talvez este seja o único texto que vou dizer em voz alta. Não sei como está o Wi-Fi onde quer que estejas. Hoje começo simplesmente por dizer olá mãe.
Não é fácil para mim escrever um texto destes. Sinceramente não tem sido nada fácil os últimos meses. É estranho que hoje me tenham dito que partistes quando sinto que há muito já foste. Mas não, não estou aqui para textos lamechas daqueles bonitos como se fosse o Daniel Nascimento do Alta Definição, todavia com a minha fuça, imagina se estivesse a chorar.
Eu podia falar do que significaste para mim ao longo de tanto, mas não seria bem o teu filho a despedir, não é? Isso seria as pessoas normais por isso vou simplesmente lembrar-me de toda as coisas mais ou menos cómicas que te queria dizer se ainda tivesses cá. Então vou perder a minha parceira de Rock In Rios? Isto é um ultraje enorme mãe! Pior de tudo, vais ver um Rock In Rio bem melhor aí em cima. Repara só, cá em baixo ficamos com a Maria Leal que agora anda numa fase meio estranha de mistura entre uma sem abrigo e a Xana Toc Toc e tu com o Prince, o Chester Bennington, o Freddy Mercury. Espero pelo menos possa ver os U2 mais uma vez primeiro do que tu.
Metade deste texto foi feito antes do velório, metade foi feito depois. Eu tentei nele esgotar todas as piadas que fazia contigo envolvendo morte. Desde o relógio e o anel que iam para o invejoso, até ficar com o carro ou a herança. Eu acho que só nós os dois no fundo vamos perceber muitas das referências que fiz ao longo do ano. Sim eu sei que parece estranho, mas eu e a minha mãe falávamos muito de morte. Dizíamos a brincar que existia 3 coisas certas na vida: os impostos, a morte e a Ivete Sangalo no Rock in Rio Lisboa. Contudo, se tivermos os contactos certos e tivermos sorte da vida, há certas pessoas que conseguem desviar dos impostos.
Quando eu me lembrei das 3 coisas certas na vida um outro pensamento sobre a minha mãe voltou a aparecer. Durante quase toda a minha infância quis ser médico, pediatra mais certo. Todavia, no meu 8º/9º ano comecei a sentir um genuíno interesse por política. Quando contei tal notícia à minha mãe ela respondeu com um simples: “CHULO”. Certo é que sim a minha mãe foi poupada de uma carreira minha como político, não obstante, conheceu uma carreira minha da banca. Estas duas profissões juntamente com funcionário da EMEL árbitro de futebol são as que mais as mães dos profissionais são visadas e por isso peço desculpa mãe.
Antes que me esqueça, sim está tudo bem com o canil. A sala agora tornou-se uma bonita orquestra de ressonar entre o Punk, o Sirius e o pai. Nem Beethoven fazia melhor. De facto, e falando no meu pai, ele tem se tornado uma dona de casa maravilhosa. Fico deveras impressionado com o gingar de tal moço na forma como pega numa esfregona como quem olha para um manual de física quântica tendo apenas completado a quarta classe à noite e executa os movimentos de limpeza. Limpeza essa que pode ser realizada por não um, não dois, não três mas quatro magníficos aspiradores um deles comprado recentemente quando duas pessoas que por vezes parecem que têm o Q.I. de dois símios de pequeno porte não encontravam a peça do aspirador. Peça essa claramente visível no parapeito da janela da cozinha. É neste momento que me arrependo de não ter tido tempo suficiente contigo mãe para te demonstrar os meus dotes culinários a fazer um delicioso camarão à guilho. Vamos fingir que foi a meias com o meu pai só para ele não ficar mal visto pela segunda vez.
Sabes mãe o que posso tirar do dia de ontem e hoje? Muita gente vai sentir a tua falta. Eu sinto a tua falta desde fevereiro que eu sinto a tua. Os ingleses tem uma frase que acho que encaixa muito bem para este contexto: “Don’t cry because it is over, smile because it happened”. Não chores porque acabou sorri porque aconteceu. E se quase exatamente há um ano a 1 de maio de 2018, quando completei os 100 textos do blogue escrevi o seguinte:
“Se estou onde estou, se sou aquilo que sou (principalmente as minhas poucas virtudes) muito se deve a minha mãe. Ela tentou sempre me dar tudo aquilo que queria, concretizar todos os sonhos que tinha e tenho e daí tenho de te agradecer. Claro que tens alguns defeitos, como por exemplo, não sabes desenhar e nota-se por esta cara que só uma mãe pode gostar, uma mãe com problemas de visão. Mas, não trocava nenhuma outra pessoa para estar na minha vida por ti.
Não me vou adiantar muito neste texto, a intenção não é essa, é apenas agradecer por estares ao meu lado, por apoiares-me quando estou em baixo, por sofres com as minhas inseguranças, por ser o meu pilar. E, visto que és a única que ainda lê estas bodegas que escrevo. Obrigado por tudo.” O que te posso dizer é que um ano depois este sentimento mantém-se inalterado. O que mais me doeu ontem e acho que durante este período tudo é que quando te via no hospital ou no centro parte de mim reparava que esta já não era a minha mãe e quando olhava para a foto que escolheram do batizado também já não eras assim, também se não envelhecesses a aturar-me e ao meu pai seria impossível. Mas foi quando vi 4 fotos tuas: uma com o Punk, uma da queima, uma do jogo da seleção e uma para mim a mais especial eu e tu pouco depois do teu acidente com o Ateca nos Guns. Essa sim era minha mãe, essa sim é a pessoa que sinto falta, essa sim era a chata que me obrigava a ligar todos os dias quando chegava e quando saia. Que me dizia todos os dias de chuva vai com cuidado, ou que bastava olhar para mim para saber se se passava alguma coisa. Sinto a falta não vou dizer que não. Seria mentir com as letras todas. O que posso garantir é que vou dar a volta, vou arranjar forma e vou ser feliz mãe porque sei que no fundo era isso que tu querias e se não fizer tu ainda és capaz de me dar uma surra de chinelo.
Adeus Mãe.
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