Número 57 ─ #JeSuisPortugal
Olá meus queridos e estimados
leitores e sejam bem-vindos a mais um texto. Na verdade, o tema do texto desta
semana não era para ser este. De facto, o texto que era para sair esta semana
há muito estava escrito, contudo não posso deixar este tema de lado.
Eu posso estar a cometer um
grande erro a falar dos últimos atentados que têm afetado a Europa em geral,
contudo falar destes atentados é uma consequência indireta do tema que tenho
para vós. Em nada me apetece escrever sobre as tragédias que se fizeram sentir
em Espanha e na Finlândia, acho que como qualquer pessoa com o mínimo de bom
senso sinto que este tipo de acontecimentos são completas e inexplicáveis
tragédias que nunca deviam acontecer, contudo quero falar de uma consequência destes
ataques, o seu efeito nas pessoas e mais concretamente nos portugueses ou
melhor nos tugas. Posso desde já avançar com uma ideia, nos últimos dias quase
tenho vergonha de ser português, tenho vergonha daquilo que muitos portugueses
têm dito, das ideias que tem proferido. Eu quero acreditar que ainda existe
bons portugueses, inteligentes, informados e não retrogradas, mas quando
abrimos as redes sociais, os espaços de comentários dos jornais, o que vemos é
um país que parou no tempo.
O meu desdém pelo que anda a acontecer
em Portugal começou com a piada do João Quadros. Para quem não sabe Pedro
Passos Coelho comentou uma nova lei proposta pelo governo com e passo a citar
(nem acredito que tive de abrir o Observador para isto): “lei de estrangeiros, que na prática permite que qualquer pessoa possa
ter autorização de residência em Portugal desde que arranje uma promessa (…) Este
foi o Governo que aprovou estas alterações. Porque é que não discutem na
sociedade portuguesa as implicações que para a segurança do país a médio e
longo prazo isso pode trazer? Da mesma maneira pergunto: o que é que vai
acontecer ao país seguro que temos sido se esta nova forma de ver, a
possibilidade de qualquer um residir em Portugal, se mantiver?”. Não meus
amigos isto não é uma tradução de um discurso de Donald Trump é sim um trecho
de um discurso do líder da oposição. Antes de começarem com os ataques, sim sou
de esquerda, mas estou-me marimbando para o espectro político português, não
vejo diferença em nenhum dos partidos e não acredito em ninguém. Ora curioso,
os comentários do Passos passaram até bastante discretos, o que leva a questão
porquê? O líder da oposição apoiar-se de argumentos xenófobos não é motivo
suficiente para ser notícia em todos os órgãos de comunicação social? Claro que
sim, contudo esta notícia foi eclipsada por outro acontecimento. E que
acontecimento completamente apocalíptico poderia criar um movimento destes? UM
HUMORISTA FEZ UMA PIADA! Ó MEU DEUS CHEGOU OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE! ESTAMOS
TODOS FEITOS! A piada foi feita pelo sempre mordaz João Quadros que escreveu no
Twitter: “Eu a pensar que só havia uma
cabeça rapada em casa do Passos”. Este tweet, ao contrário das virgens
ofendidas portuguesas pensam, não está a gozar com a mulher do Passos Coelho
que se encontra numa batalha contra o cancro, mas sim, explorar o facto dos
comentários do Passos Coelho terem um fundamento extrema-direita, e o
extremista direito mais famoso da história ser Adolf Hitler. Eu não vou
aprofundar o tema dos limites do humor, isso deixo para um texto sobre o tema,
contudo para todos os entendidos de Capazes, Observadores e brilhantes mentes
que povoam este Portugal dois pontos para rematar o assunto:
- Primeiro ─ o alvo da piada não era a Laura Ferreira, mas sim o próprio Passos. O Quadros não está a gozar com cancro, mas sim com nazismo;
- Segundo ─ a única pessoa tem legitimidade para achar a piada ofensiva é a Laura Ferreira, não nenhum dos defensores do politicamente correto. Podem achar que não tem piada, contudo não foi dirigida diretamente a vocês. Claro que se forem como a Rita Ferro Rodrigues todos vós vão achar que tem a razão para se sentirem ofendidos por sei lá possuírem dois cromossomas iguais (talvez?) ou porque simplesmente não tem um QI suficiente para perceber o que é uma piada e qual foi o sentido da piada.
Contudo, a pior parte do tugismo
manifestou-se após os ataques terroristas, onde uma panóplia de estupidez se
demonstrou de tal forma que me obrigou a escrever este texto, tentarei ao
máximo reunir toda a estupidez de forma resumida que os ataques criaram:
- Malta que mal a notícia saiu comentou que seria benéfico para Portugal ─ é o tipo de pessoas que só pensa no dinheiro e mal uma notícia dessas pensa mais turistas para serem engados no Made In Correeios. Obviamente que é dos aspetos que mais nos devemos preocupar quando nos deparamos que o Terrorismo no mundo está a aumentar;
- A saída à rua dos extremistas de sofás e dos admiradores de Salazar─ este é o tipo de pessoas que estava à espera de um ataque destes para tirar as suas suásticas e os seus posters de Salazar para condenar os estrangeiros e promover uma guerra étnica e a ideia de “Orgulhosamente sós”;
- As televisões preocupadas apenas com as audiências e as páginas online com os clicks ─ porque não haja dúvida que as televisões e os outros órgãos de comunicação social têm feito um trabalho excelente. Mostrar imagens quando a polícia pediu para não o fazer, e centrarem as suas atenções apenas em tudo o que envolveu a morte de duas cidadãs portuguesas. Meus amigos a notícia é apenas que dentro dos mortos estão duas pessoas de nacionalidade portuguesa. A partir daí, saber quando chegaram o que compraram ou o que comeram, não tem interesse informativo nenhum. E, todos os outros que lamentaram haver vitimas portuguesas, esse não deve ser o verdadeiro motivo para lamentarmos. O motivo que nós devíamos lamentar é ter existido mortos feridos seja de qualquer que seja a nacionalidade, a tragédia não muda por estarem portugueses ou não envolvidos.
Os portugueses condenaram os EUA
por ter elegido Donald Trump, condenaram a França por terem tornado Marie Le
Pen uma candidata legitima, condenaram o que aconteceu em Charleston este ano com as manifestação nazi. Mas querem saber a verdade? Não somos melhores. Somos tão
maus como eles, somos tão racistas como eles, somos tão xenófobos como eles,
somos tão desumanos como eles. É preciso uma tragédia destas para estas
gentinhas saírem à rua e mostrarem aquilo que são. Para ser honesto, eu não
tenho medo do Terrorismo em si, dos ataques, de morrer num deles, eu tenho medo
é o que o Terrorismo nos tornou. O Terrorismo depressa nos está a tornar em
pessoas tão más como os próprios terroristas, os extremistas estão a aumentar
de dia para dia, e não estou a falar apenas em jihadistas, estou a falar dos
apoiantes de ideias nazis, do fim da liberdade de expressão, dos apoiantes do
racismo, da xenofobia e das ideias extremas-direitas e esquerda. O que tenho
medo… é de nós próprios. Cada vez mais, ser humorista é condenável, ser
extremista é normal. E só quero acabar com viva os labirintos. Até para a
semana.
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