Número 53 ─ Para o Chester

Olá Chester, onde quer que tu estejas. Tu não sabes quem eu sou, mas acredita, influenciaste para sempre a minha vida. Eu comecei a ouvir a tua música com Collision Course, aquele álbum de colaboração que tu e os Linkin Park fizeram com o Jay Z. A primeira música que ouvi foi a Numb/Encore e fiquei boquiaberto. Naquela altura as pessoas com quem eu falava tinham mais apreço pelo Mike ou pelo Jay, contudo, eu sempre senti empatia pelo vocalista mais contido, o que não fazia rap, o que tanto gritava como cantava lindas melodias sem desafinar. Não sei, havia algo especial nele. Esse álbum passou em loop tanta vez no meu walkman que não sei como ainda funciona e não tem nenhum risco.

Passado pouco tempo pedi incansavelmente para comprar o CD e DVD Life in Texas, a interpretação ao vivo num estádio de futebol dos maiores temas dos dois primeiros álbuns Hybrid Theory e o Meteora. Eu fiquei boquiaberto com o teu alcance vocal, com as melodias cruas das guitarras, com a mistura de géneros musicais, com os raps do Mike. Se tivesse que destacar uma música seria a Pushing me Away. Não sei o porquê, mas lembro-me perfeitamente da pergunta que fizeste: “Is there any musicians in the house?” antes de iniciares a música e de dares uma palavra de apreço para os novos músicos, para não desistirem porque há pouco tempo eram vocês na posição deles, de serem fãs em concertos das vossas bandas favoritas.

E, assim, os Linkin Park ficaram para sempre no meu coração e acompanharam o meu crescimento e a minha juventude. Deste modo, um dos meus maiores sonhos era ver os LP ao vivo. Lembro-me de vocês estarem no cartaz do primeiro Alive e eu pensar um dia iria ver a minha banda favorita. No primeiro Rock In Rio que vocês foram eu vi pela televisão com um enorme sentimento de inveja, isto no longínquo ano de 2008. A mesma situação repetiu-se em 2012, mas por fim em 2014, finalmente vi ao vivo a minha banda favorita. Cantei com toda a força que existia na minha voz e, durante quase todas as músicas, com lágrimas nos olhos. Lembro-me perfeitamente do mendley mais bonito que ouvi: Leave Out All the Rest/ Shadow of the Day/ Iridescent. Foi simplesmente lindo. A minha mãe ficou algo encantada com a tua beleza e olha que ela é meia esquisita por isso deves ficar contente.

Hoje acordei e nada de estranho parecia estar a acontecer, foi um dia estranhamente calmo. Por ironia do destino pus-me a ver músicas do Bo Burnham e inevitavelmente apareceu a Kill Yourself. Desde a primeira vez que ouvi achei piada à musica, mas hoje seria apenas uma grande ironia. Abri o Facebook como tantas vezes faço para falar com a minha namorada e soube a notícia. Não queria acreditar. O TMZ tinha de estar errado, tu não podias morrer, tu não podias fazer aquilo… Não havia nada na página dos LP, apenas o vídeo do novo single Talking To Myself, o último que irias ver enquanto vivo. Eu não podia acreditar. A notícia depressa se espalhou e eu continuava a não acreditar. Só quando vi o tweet do Mike a dizer que era verdade é que caí em mim. Foi como um murro no estômago. Ainda por cima da forma como foi, no dia do aniversário do Chris Cornell. Não conseguia chorar nem sequer verbalizar o que estava a acontecer.

Depressão é uma doença deveras complicada. Eu acho que ainda é vista de lado pela nossa sociedade. Não vemos ninguém a fazer vídeos quando descobrem a doença com planos lindos de paisagens ou recebe-se aplausos quando finalmente se curam. Para as pessoas comuns depressão é apenas tristeza. Acham que os problemas delas são muito maiores do que aquelas que sofrem de depressão. Os comentários dos vermes sobre as pessoas que sofrem de depressão só fazem as pessoas: “Mas ele é famoso não devia ter depressão.”, “Mas ele é rico e tem tudo o quer.”, “Mas ele é filho único e um excelente aluno, como assim tem uma depressão?… A depressão também mata como tantas doenças consideradas gravíssimas. Tu foste mais uma vitima Chester. Quero que saibas que o teu talento me ajudou e ajudará a ultrapassar a minha. Se conseguir ultrapassar o que será diferente? Bem, provavelmente nada, mas espero que saibas que se conseguir tu foste uma peça importante, a tua arte será para sempre recordada e por isso obrigado. In the end/it doesn’t even matter, talvez sim talvez não, um dia saberemos.


Bruno Tomás 20/07/2017


Bem eu sei que hoje era suposto trazer-vos um texto sobre a praxe, deixarei esse para a semana que vêm porque há coisas muito mais importante para falar do que esse tema algo corriqueiro e até supérfluo quando comparado com doenças como a depressão.


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