Número 19 ─ Eu sei que é a fingir, mas deixem-me ver por favor
A todos os meus excelentíssimos
leitores uma muito boa tarde, bem-vindos a mais um texto, a apenas um de
chegarmos a uma grande marca de duas dezenas de textos. Hoje trago-vos algo que
é considerado pelo comum dos mortais como “falso” e alvo de muitas criticas e
não, não estou a falar do rabo da Kim Kardashian, estou a falar de wrestling ou
pro-wrestling ou sports entertainment como preferirem.
Eu desde dos meus onze anos sou
grande fã de wrestling. Comecei a seguir quando houve o denominado boom do
wrestling em Portugal, os anos de 2005 e 2006. Eram tempos onde a programação
da maior empresa mundial a WWE era voltada para os 16-20 anos se bem que muitos
do que viam eram jovens adolescentes como eu e os meus colegas. Era um tempo
diferente onde havia celebrações de títulos com sexo, sangue, palavrões,
raparigas capas da playboy, pancadaria, etc. Era o tempo onde o John Cena era
fixe, o Batista era o maior, o Undertaker era a lenda, o Randy Orton o cobarde,
o Triple H o mau, o Shawn Michaels o rapaz com crise de meia idade (um homem
perto dos quarenta anos ter uma música de entrada que diz “I’m just a sexy boy”),
e o Ric Flair era um velho de cuecas. Este era um mundo de loucos que nos
atraia para essa loucura.
Contudo chega uma altura em que
descobrimos a verdade, o wrestling é como dizem “falso” (digo com aspas porque
na verdade o wrestling é uma arte performativa onde os resultados da
performance são pré-determinados). Nesta altura muito dos fãs deixam de gostar,
sentem-se enganados, é um sentimento igual ao quando descobrimos que o Pai
Natal não existe (ups spoiler alert). Eu como já sabia desse facto antes de
começar a ver, não me fez deixar de ver, contudo tornei-me dos poucos que
continua a ver. Estes poucos que continuaram a ver depois do boom tornaram-se
assim os atuais membros da CWO (comunidade de wrestling online), uma comunidade
de poucos membros, todavia muito ativa de pessoas que sentem paixão algo que
muitas pessoas não percebem o porquê desta paixão e, esse, é o motivo de fazer
este texto.
O wrestling para mim tornou-se um
escape da minha vida. Por muito mau que a minha vida esteja basta ligar a
televisão e ver um combate de wrestling para ficar bem. Por muito que pessoas
me traiam a confiança penso que hei pelo menos não sou o Marty Jannetty e não
fiquei com vidros da Barber Shop no corpo. E, por muito que seja humilhado num
emprego pelo menos nunca terei de beijar literalmente o rabo do meu patrão, o
que me tranquiliza.
As pessoas que olham para o atual
produto do WWE dos últimos anos não entendem o que me atrai e por um lado
percebo. Em 2008 a programação da empresa de Stanford passou a ser PG, o que
reorganizou que o produto passasse a ser orientado para famílias e
principalmente miúdos. Obviamente tivemos de dizer adeus a sangue propositado
(já agora no wrestling existem duas formas de provocar sangue: a sério com
pancadaria no sobrolho ou através do corte com uma lâmina na testa. Explico
isto para pararem com o mito que é sangue falso, falso é a coisa da Joana),
adeus aos palavrões e adeus às raparigas seminuas (se bem que continuam com
trajes pequenos). As histórias tornaram-se mais infantis, os personagens mais
kids friendly. Este fenómeno vamos ser sinceros, a todos os atuais fãs de
wrestling, estragou o John Cena, por exemplo. E, assim a junção de uma
programação mais infantil e o facto de ser “falso” leva a muitos pessoas
fazerem a famosa pergunta: “Wrestling, ainda vês isso? Sabes que é falso
certo?”
Vamos meter os pontos nos i’s.
Sim eu sei que é falso, até sei como alguns golpes são executados e para além
disso sim ainda vejo wrestling. É algo interessante falar do wrestling como
falso, porque advém da forma como nós olhamos para o próprio wrestling. As
pessoas que acusam o wrestling de ser falso de este ser um desporto. Eu não
fico chocado com a falsidade do wrestling porque para mim este é um programa de
entretinimento, tal como uma série por exemplo. É uma história que culmina num
combate, é uma espécie de Game of Thrones.
Quanto à segunda parte da
pergunta tenho para informar que a WWE não é a única empresa de wrestling no
mundo. Para quem não sabe o wrestling é como os gelados, existem sabores para
todos os gostos, dos mais tradicionais como a baunilha e o chocolate e os mais
peculiares como bacalhau com natas.
No wrestling temos os mais
puristas como a Ring of Honor e a New Japan Pro Wrestling, um estilo focado
mais na competição desportista se bem que aos poucos a componente de histórias
começa a entrar nestas duas empresas. Este estilo foi popularizado no Japão por
pessoas como Tiger Mask, Jushin Liger, Kenta Kobashi, The Great Muta e
Mitsuharu Misawa. É um estilo baseado nas manobras com maior impacto que primam
pelo realismo.
Para aqueles que gostam dos
ataques aéreos o estilo mexicano será o ideal. O estilo popularizado nos EUA
por lutadores como Rey Mysterio Jr. e Eddie Guerrero é baseado na componente
mais na espetacularidade dos golpes que utilizam as cordas e o atleticíssimo
dos lutadores. Há manobras tão espetaculares que deviam estar em competições de
ginástica dos jogos olímpicos.
Aqueles que gostam do wrestling
pela vertente do divertir existe a Chikara e a DDT. São empresas onde o foco
principal é a comédia. Combates com bonecas insufláveis, escadotes como
campeões, granadas invisíveis em slow motion, etc, já fizeram parte de combates
destas duas empresas.
E, para aqueles que gostam de
sangue, combates com armas e do estilo denominado hardcore (por favor não
confundir com o termo usado para a indústria para entretinimento maroto) temos
a CZW, Combate Zone Wrestling, uma empresa que levou o estilo popularizado pelo
ECW, outrora terceira maior empresa norte-americana a um extremo ainda maior,
com combate com vidros, arame farpado, fogo e, até, lâmpadas fluorescentes.
Claro que depois há novos
produtos que apareceram nos últimos anos que cada vez mais tem captado fãs que
nem sequer viam wrestling. A série Lucha Underground é o caso disso. Um
programa de wrestling que é realizado como uma série de televisão. As histórias
vão apelar muito aos fãs do estilo Walking Dead ou até Vampire Diaries, com as
suas histórias surreais, contudo muito bem escritas e elaboradas. Ou então o
NXT, o território de desenvolvimento da WWE, que apresenta um produto
semelhante ao do da ROH, focando muito na ação dentro de ringue.
Desta forma, encontro no wrestling
e nos vários produtos de wrestling coisas para me divertir, para ficar agarrado
a uma rivalidade, a um combate que me deixe maravilhado ou a algo tão estranho
que não sei o que devo pensar (se nunca viram procurem no YouTube Final
Deletion director’s cut e se gostarem Delete or Decay director’s cut, eu sei
coisa mais estranha de sempre). Eu não me esqueço da onda de emoções que tive
ao ver o combate do Michaels contra o Taker na WrestleMania 25, de estar
completamente vidrado na rivalidade do Cena contra o Punk para o Money in the
Bank de 2011. O wresling para mim é tudo. Eu lembro-me da felicidade de ter
visto o meu primeiro evento, e anos depois lá estava eu em cima do ringue a ser
o apresentador de um WP Academia (sim existe wrestling em Portugal e acreditem
ou não tem muita qualidade. Aconselho vivamente a verem os eventos do WP com o
Salvador, o Duarte, o Mauro, o Rafa, o Bernardo, o Ramon, o Fan…tástico David
Francisco (eu não me esqueço que tenho de te meter over), o Bammer e aquele que
me deu a oportunidade de realizar um sonho o grande Rúben Branco. O wrestling
não se explica, sente-se. É algo que por vezes se torna difícil de pôr em
palavras. Admiramos aqueles lutadores, aquelas personagens e depois ver eles a
ganhar ou a perder fazem uma montanha russa de emoções inexplicáveis. Lembro-me
da felicidade de ver o CM Punk ganhar o título em Chicago e o Daniel Bryan
fazer YES YES YES com os dois títulos no final da trigésima edição da
WrestleMania, ou a tristeza de ver o mesmo Daniel Bryan e o Edge se retirarem
por causa de lesões.
E, desta forma, me despeço. Sei
que foi uma tentativa algo falhada de tentar explicar o meu fascínio por isto.
Talvez muitos não tenham percebido metade do texto, todavia só espero que não
tenha denegrido a imagem de algo que gosto tanto. Existem inúmeras pessoas que
sabem muito mais disto do que eu, porém esta foi só uma tentativa de mostrar
aquelas pessoas que conhecem o porquê de eu gostar tanto disto. Prometo que o
próximo texto terá mais piada, e será o vigésimo, uma marca que nunca pensei
alcançar. Até à próxima semana e não se esqueçam MAKE ROMAN REIGNS LOOK STRONG
DAMMIT!

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