Número 22 ─ O menino Jesus nasceu e eu gosto tanto disto como um supositório

A todos os meus leitores sejam bem-vindos a mais um texto nesta semana de Natal. A época natalícia inicia-se oficialmente neste domingo com a noite de Natal que depois prolonga-se até segunda-feira, ou melhor, isso era o suposto, contudo não é bem assim. Tal como no futebol quando acaba a época, contudo quase instantaneamente começa a pré-epoca, parece que no dia 26 de dezembro à meia-noite e um, começa as preparações para Natal do próximo ano.

Convém desde já avisar que eu detesto o Natal. Em termos de coisas que obrigatoriamente temos de fazer, o Natal é só ultrapassado pela obrigatoriedade de a partir de certa idade os seres humanos de sexo masculino terem de fazer um exame à próstata. Agora a todas as pessoas tão inocentes que pensam que o Natal é a “época mais feliz do ano” tenho para dizer que o Natal é a pior altura do ano.

O Natal é uma época tão consumista que o símbolo do PCP devia ser uma foice a cortar o pescoço do Pai Natal. O Natal só serve para isso, impingir um Consumismo despropositado sem medidas. Muitos portugueses gastam muito mais do que devem nesta altura e tudo por causa de uma coisa, mostrar. Parece que as melhores pessoas do mundo são aquelas que enfeitarem a casa parecendo mais o esconderijo de um daqueles travestis que fazem atuações. É fitinhas, é luzinhas, é Pais Natal a cantar em inglês. É a minha representação de inferno, de inferno ou do útero do Castelo Branco, qual dos dois seja o pior.

Para quem não se apercebeu, eu sou agnóstico, aquele tipo de pessoa não religiosa que não acredita em nada divino até me enviarem provas do contrário. E, quanto ao Natal, o que me faz confusão acreditar por si, no milagre que provocou a origem desta época festiva, isso porque nos últimos anos, este fenómeno é mais comum que nevar na Serra da Estrela. Meninas com os seus 15/16 anos chegarem a casa a dizer: “Mãe, Pai estou grávida, mas não sei como, foi obra de Deus”. Se todos estes casos forem verdade já entendo a falência do Banco Espirito Santo, foi para pagar as pensões de alimentação do seu “patrão”.

Contudo o ódio profundo que tenho pelo Natal, nada tem a ver com a religião, tem a ver sim com as pessoas, e mais concretamente, a hipocrisia que o Natal gera nas pessoas. Eu admito que tenho muitos defeitos, enormes, se calhar sou a pior a pessoa do mundo, contudo não mudo a minha forma de ser porque é o Natal. Não me torno numa pessoa totalmente diferente porque subitamente é Natal, nem começo a gostar de pessoas que não gostava porque é o Natal. Eu vou confessar algo que me faz parecer tão mau com um ditador de extrema direita, todavia, há membros da minha família que simplesmente não gosto/não aprecio/são me indiferentes. Eu sei, é algo completamente macabro e obscuro, porém sendo que ao contrário dos teus amigos, tu não escolhes a tua família, é normal, acho eu, existir alguém da tua família que não gostes. Eu não sou daquele tipo de pessoas que pelo facto de partilhar algum material genético me faz, automaticamente, gostar dessa pessoa. Desta forma, quando chega o Natal e infelizmente a obrigatoriedade de ter de me dar e partilhar horas da minha vida com gente como elas, o meu estado de espirito não é de todo o mais alegre nestas épocas. Claro que depois olham-me de lado por eu estar com umas trombas maiores que o Dumbo por não copular com aquela fachada. É mauzinho. E depois pior ainda é pensar em prendas para pessoas que não gostamos, claro que as minhas escolhas residiam entre veneno de ratos ou uma viagem só de ida abordo do Costa Concordia, porém a minha mãe impede-me. Nesta perspetiva, o facto de estarmos em crise ajudou em muito, podemos dar a desculpa da crise para não gastarmos dinheiro em pessoas que não gostamos.

Depois o culminar deste triste episódio familiar é a ceia de Natal, se bem que a ceia de Natal traz a única coisa boa do Natal, o comer. Quem não gosta de enfardar como um animal de médio porte no Natal? Se antes do Verão andamos em regime para parecermos todos bons quando estivermos na praia, antes do Natal fazemos regime para não parecermos o Fernando Mendes depois do Natal. Qual é a pessoa no Natal que não faz excessos? Parece que, na época natalícia, há uma desculpa para comermos o dobro do nosso peso em dois dias. E, falando em comida de Natal, à semelhança com palavras de conotação sexual com comida típica dessa época é de corar a Virgem Maria, é rabanadas, é coscorões, e não sei, mas há tantos pratos com bacalhau nesta altura que de certeza que em alguma terreola é tradição começar a ceia de Natal com uma boa punheta de bacalhau. Talvez seja nas imediações da Casa da Mães Kikas ou então nas imediações do Secret Story.

Contudo há uma coisa que é pior do que tudo no Natal, as crianças. Eu imagino na cara dos pais que fazem um sacrifício de comprar as bugigangas que os putos só vão brincar durante 72 segundos e pior ainda eles agradecem a um gajo gordo vestido de vermelho que não sabem se é verdade ou não. Desculpem, mas eu vou dizer desde sempre que o Pai Natal não é verdade para que no futuro o meu filho não queira sentar ao colo do Pedro Guerra. É gordo, tem uma afiliação muito grande com vermelho e o Pina é demasiado parecido com o Rudolfo. Pelo sim pelo não, adeus Pai Natal.

Eu tenho inveja dos miúdos no Natal, porque para eles o Natal é a coisa mais fixe do mundo, é como se a gaja mais boa que conhecemos fosse capa da Playboy, a diferença para a realidade seria pouca (neste caso muitas delas têm roupas que deixam muito para imaginar), mas não deixamos de ter aquele sorriso parvo quando chega a altura. É uma felicidade exponencial para nós. E o que é verdade é que até a rapariga que agora meteu implantes quer mostrar para todo o mundo se estão bem ou não, nunca terei esta felicidade.

E, sem nada a acrescentar, me despeço. A minha mãe precisa de ajuda para fazer filhoses e está a gritar comigo de tal maneira que tenho mesmo de terminar o texto, espero que o Pai Natal vos traga muitos CDs da família Carreira e pares de peúgas.



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