Número 23 ─ Ano Novo vida velha
A todos os meus muito dignos
leitores, bem-vindos a mais um texto, o último deste ano. Sinto bastante
nostálgico, pois é o último texto deste ano. Este ano foi um ano de altos e
baixos, parece que foi produzido pelo Canal Q para meter em perspetiva a pessoa
com a qual passei a minha última passagem de ano a falar e que neste momento é
uma mera desconhecida para mim. Espero que o gordinho tenha mais sorte com ela…
Any who, referi-me a essa pessoa, porque a conversa que tive com ela na
passagem de ano serviu de base para este texto, as resoluções de Ano Novo.
Por motivos que desconheço, o Ano
Novo é o período que as pessoas usam para enganar as outras dizendo que este
será o ano que vão mudar a vida. As promíscuas vão atinar e encontrar o homem
da sua vida; as pessoas com excesso de peso vão perder todo o peso que têm e
tornar-se tão leves como o ar, o ar ou a mochila que o Relvas usava para a
universidade, o que for mais leve dos dois; os fumadores deixar de fumar; os
universitários começar a estudar... Eu não entendo este tipo de pessoas porque
mal as doze badaladas batem, uns começam aos beijos com desconhecidos, outros a
emborcar bolas de Berlim como o Dr. House tomava comprimidos para as dores,
outros a fumar 6 maços de cigarros por minuto (não se via tal poder de sucção
desde o novo filme daquela muito famosa atriz portuguesa, sim essa que estão a
pensar), e os universitários vão direitinhos ao ecoponto azul depositar os seus
apontamentos porque não vale a pena. Quem espera pelo dia de Ano Novo para
mudar de vida ao fim de contas não tem qualquer tipo de força de vontade de a
mudar, só faz porque toda a gente faz. É aquele tipo de coisas que toda a gente
faz, contudo ninguém sabe ao certo o porquê, como há uns anos a moda de meter
as calças no fundo do cu.
O Ano Novo é um dos membros da
Santíssima Trindade de alturas estúpidas do ano, sendo completado pelo Carnaval
e o Natal. Face aos seus colegas de Trindade, o Ano Novo tem os seus lados
positivos e negativos. Na vertente positiva destaco o facto de não haver fatos
estúpidos (se bem que há pessoas que se vestem para o Réveillon como quem
tropeça para um armário), não há o risco de irmos para a cama com um marinheiro
a julgar que era uma moça (se bem que há marinheiros que com uma cabeleira
loira fazem frente a muitas Marias, Joanas e afins), nem aumenta num dia para o
triplo o risco de AVC das pessoas por causa da ingestão avultada de gorduras e
doces. Contudo, nem tudo é um mar de rosas não fosse este dia um membro efetivo
da época anual da estupidez a começar pelos planos de festa de Ano Novo. Todos
os anos as pessoas reúnem-se para o que será sempre a tentativa falhada de
fazer a Passagem de Ano mais épica de sempre. Todos os anos, o orçamento
aumenta e a frustração no final é sempre semelhante. “Hei puto vamos fazer a
passagem de ano na lua”, se pensarmos bem daqui a pouco tempo não será algo
descabido, e não devido à massificação do turismo lunar, mas sim pela loucura
das pessoas que planeiam. Diga-se de passagem, que a culpa não é das pessoas
que planeiam, é das pessoas que eles convidam. No planeamento parece a festa
mais brutal do mundo. O entretenimento ficará a cabo de bandas conceituadas
como os Rolling Stones ou os U2, terá um espetáculo pirotécnico como a abertura
dos Jogos Olímpicos de Londres (diga-se a organização dos no Rio deixou um
pouco a desejar). Contudo por todos os motivos e mais alguns, as passagens de
ano acabam todas da mesma forma: com a playlist de música popular dos teus
amigos e contempla os greastest hits do Quim Barreiros, música brasileira de
qualidade duvidosa e aquela Kimzombada de meter medo ao susto.
Depois temos sempre a maior
consequência de todas a ressaca de ano novo. Aquele momento em que acordas na
cama de manhã com aquela rapariga que nutres um ódio peculiar por ela, com
aquela cara de caniche despenteado com ares de quem ainda sente falta dos
tempos que passou no Brasil.

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