Número 10 ─ Diz "nim" à praxe

Olá meus queridos e estimados leitores, e sejam todos bem-vindos a mais uma crónica tão bela e bonita que dá vontade de fazer conchinha com ela. Hoje tenho que vos admitir que este foi o tema sobre o qual tive mais dúvidas se deveria escrever ou não. O que é certo é no dia em que escrevo isto ,9 de agosto de 2016, e, tendo em vista ser lançado nesta última quinta-feira de setembro, sabia que ou seria agora ou nunca mais seria. Está criado um microclima interessante para abordar esta temática, por um lado encontro-me em agosto a escrever isto e as notícias sobre Praxes ainda não apareceram, por outro irá ser lançado em finais do mês de setembro. Neste momento, só se fala de jogos olímpicos e escrevo-vos no dia imediatamente posterior ao da Telma Monteiro ganhou uma medalha de bronze, o que faz com que durante um dia inteiro o judo se torne o desporto mais importante em Portugal. Por outro lado, este texto será lançado na última semana de setembro, o mês em que esta temática é algo revelante. Como acabei de vir do ginásio e tenho as costas largas para tudo de negativo que este texto me possa trazer, decidi então escrevê-lo.

A Praxe é a nova tourada em Portugal. De um lado, os defensores cegos da Praxe, do outro, os defensores do fim da mesma. Agora perguntam-me, "Meu caro e belíssimo Gajo Que Diz Coisas, qual é o extremo que tu escolhes da barricada?". Pois eu vos respondo porque é para isso que me pagam, "Exatamente no meio". Num tema onde só existem extremos, eu prefiro estar no sítio onde ninguém está, no meio. O motivo para esta minha posição é simples, existem coisas erradas de ambos os lados.

Eu praxei e fui praxado. Na verdade, saí ao fim de 2 anos e meio, sendo que num ano fui praxado e o restante ano e meio praxei, o que acho que me dá algum fundamento para falar com ambos os lados. Começando com o lado que defende a abolição desta atividade. Meu caros amigos, deixem que vos diga que a Praxe não é o bicho papão que vocês pensam. Este ponto levanta a primeira pergunta: “O que é a Praxe?”. Começarei por apresentar a definição dita “oficial” de Praxe e depois a minha abordagem à temática. Em termos “oficiais” e o que dita a maior parte dos códigos da mesma espalhados por esse Portugal a fora: “Praxe Académica é o conjunto de usos e costumes tradicionalmente existentes entre alunos de uma universidade decretados por um Conselho de Praxe/Veteranos e que vise a receção de novos alunos que entram para essa mesma universidade. A Praxe tem por objetivo integrar o novo aluno fazendo-o divertir-se, sendo que qualquer atividade é considerada incorreta e, por sua vez, deixando de ser Praxe a partir do momento em que a integridade física e/ou psicológica do Caloiro seja posta em causa.” Esta descrição é bastante detalhada e algo grande. Para mim Praxe é algo mais simples: “Praxe é umas atividades meio parvas e divertidas que os alunos com mais matrículas numa universidade fazem aos que entram nesse ano. O objetivo principal é divertir, fazer amigos, e ter histórias meio maradas para contar aos netos.”

É verdade, e, por isso, não posso deixar de dar razão às pessoas que são anti-praxe, visto que esta criou tragédias. A história do Meco foi a mais mediática e ainda se encontra muito presente na nossa sociedade, mas como tudo na vida, existe Praxe bem-feita e malfeita. A Praxe bem-feita visa a diversão de um caloiro e, se for possível, a aprendizagem de algo importante para a sua vida futura, uma lição que ultrapasse a sua vida académica e o mude para uma pessoa melhor. Já a praxe malfeita deve ser condenada e, desta forma, ainda bem que foram criados meios para a denunciar. Mas meus caros anti-praxe, não tentem generalizar algo. A generalização só cria tragédias. Não é pelo Hitler ser alemão que todos os alemães são nazis. Não é por existir o Estado Islâmico que todos os muçulmanos são terroristas. Não é por o apelido ser Carreira que tu lanças CDs. Pronto ok, a última pode ser verdade, todavia de uma forma geral, não é por terem existido tragédias envolvendo Praxe que toda as “Praxes” (eu sei que não existe plural, por isso não me atirem com pedras é apenas para efeitos de transmissão de mensagem) são perigosas. Acreditem que meter a integridade física e mental dos caloiros é, muito, mas mesmo muito raro acontecer. A primeira coisa que faz uma pessoa pertencer a uma comissão de Praxe não é humilhar caloiros. De facto, e vamos ser honestos, para uma porção algo grande de trajados, o que lhe faz estar em Praxe é uma coisa: comer caloiras. Mas se este é o vosso problema, também terão que acabar com as festas universitárias e com todas as discotecas bem como o Bairro Alto e Santos.

Antes que me comecem a apedrejar em praça pública, eu sei que o que faz a maior parte das pessoas estarem em Praxe não é o amor tórrido com caloirada, o que faz um trajado é uma mescla de sentimento de orgulho com pertença com o de pertencer a uma causa maior, é a tentativa de repercutir algo que foi inesquecível, o ano de caloiro, em novas pessoas, numa nova geração de caloiros. Desta forma, caros amigos anti-praxe estou do vosso lado no que diz respeito acabar com as “Praxes” estúpidas que resultem em humilhações para caloiros, porém não posso subscrever à extinção simples da Praxe.

Agora vou mexer um pouco na ferida e, sei que vou ser um controverso, todavia considero que o atual estado de declínio da Praxe em todo o país se deve a um grupo de pessoas, e não é dos anti-praxes, é sim dos próprios praxistas. Meus caros, se querem combater a causa do declínio do que amam tanto, olhem para o espelho. Como disse anteriormente, fui praxado. Nunca fui humilhado nem coisa que se pareça, mas, houve praxes que simplesmente achei estúpidas. É como tudo na vida. Nem todos gostam de todas as pessoas, nem todos gostam de todas as piadas, nem todos gostam de todas as “praxes”. Ora como não gostei de certas coisas, não fiz essas mesmas coisas a outras pessoas, contudo existem uns imbecis que como lhes fizerem algo que eles não gostaram, insistem em fazer essas mesmas atividades aos outros com o argumento da tradição. A essas pessoas só tenho uma coisa a dizer, "Aqui na minha terra temos a tradição de meter essas pessoas em campos cheios de colmeias todos nus enquanto chateamos e atiçamos as abelhas. No final do dia vão ficar mais inchados que o Fernando Mendes, mas não podemos fazer nada que é tradição."

Recordo-vos meus camaradas que até há uns anos, era tradição fazer uma fogueira com aquelas pessoas que se acreditava serem bruxas, agora dão a essas pessoas programas de televisão mesmo que a inteligência dessas pessoas seja tão questionável,  como aquilo que veem nas suas cartas. A tradição é para manter se for boa e saudável, se for má não não. Se for desagradável parem simplesmente com a tradição e arranjem outra coisa mais engraçada e gira para fazer.

Quem também que não podem culpar é o grupo de caloiros por não ir à Praxe. Faz-me muita espécie este tipo de conversa por inúmeras razões: primeiro lugar, é provável que os caloiros não estejam a ir à Praxe porque as vossas atividades estão a assemelhar-se a matéria excrementícia vinda diretamente de uma manada de elefantes bebés e, em segundo lugar, ao contrário de uma aula em que tenhamos de marcar presença ou o Dia de Defesa Nacional, a praxe não é obrigatória e cabe a vocês, meus queridos que Deus vos deixa permanecer aqui na Terra para fazer atividades que atraiam as pessoas. Não se preocupem que já estou a ouvir as vozes a gritar numa chinfrineira tal: “Ah e tal temos de fazer Praxe de uma certa maneira, para ensinar aos caloiros de uma certa maneira. Só existe uma forma de fazer Praxe.” A isto vos respondo: “Ninguém sabe o que pode ser uma atividade de Praxe ou não.” Desta forma, em vez de se preocuparem com a forma, preocupem-se com a mensagem. Se a mensagem é passada de uma forma diferente de que foi passada a vocês, mas foi assimilada é uma vitória. Cada grupo de caloiros é um grupo diferente, pois é construído por pessoas diferentes. Assim sendo, não podem garantir que as coisas resultam todas da mesma forma. Sejam inteligentes visto que já chamam de burros aos caloiros não podem cair nos mesmos erros.

Outra coisa que me faz urticária no calcanhar é as referencias ao Meco em frente dos caloiros. Em privado, não vou fazer nenhuma critica visto que sou daqueles que acha que deve haver liberdade de expressão, não obstante, quando estão a praxar, evitem. Existe sempre aquele embezerrado que numa atividade de Praxe se vira para os caloiros e diz em alto e bom som: “Amanhã tragam todos braçadeiras azuis do Pato Donald que vamos para o Meco.”- e depois pisca o olho como se tivesse a graça do Ricardo Araújo Pereira, quando na verdade tem a graça de um gato siamês careca. Não se ponham a jeito meus senhores, não deem razões para os movimentos que querem acabar com a Praxe tenham razão.

À vista disto, recai em vocês atuais praxantes o futuro da Praxe. Não tenham medo de evoluir e de sair de uma visão secretista da Praxe. Deixem aqueles que vos criticam, sem saberem ao certo o que fazem, assistirem àquilo que vocês executam e se caso continuam a não gostar, continuarão a tentar acabar com aquilo em  o que vocês acreditam. Todavia, se gostarem, transformam um crítico num apoiante e têm desta forma mais força. São vocês, caríssimos praxantes que têm a missão de não deixar morrer algo que acredito que vos fez muito bem na vossa vida académica. Não a deixem morrer! Que o Dvra Praxis Sed Praxis não fique como a língua latina, morta.

Desta forma, me despeço que ainda tenho de ir ver as provas do Micheal Phelps e, tenho de coser na minha capa emblemas dos Metallica com pelos do Rufus, o rato careca da Kim Possible. 



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