Número 2 ─ Futebol

Chegou uma altura pertinente para falar de futebol. Já acabou a euforia do Europeu, e ainda falta umas semanas para estarmos fartos das discussões entre o José Pina e o Pedro Guerra. O futebol é considerado o desporto rei em Portugal, o único desporto que importa para a generalidade da população, à exceção de 4 em 4 anos criticarmos os atletas dos jogos olímpicos por não terem ganho medalhas com nem 1 décimo do apoio do da seleção portuguesa de futebol.

Vamos começar mesmo com a seleção. A seleção este ano demonstrou o que há mais tuga na nossa alma, a hipocrisia portuguesa. Durante as várias participações da seleção em competições internacionais, Portugal saia sempre campeão da moralidade. Basta recordarmos a saída de Ronaldo que ecoou o sentimento lusitano de injustiça no final das meias-finais do campeonato europeu de futebol de 2012. Quantas vezes ouvimos as frases: “Jogamos bem, mas…”, “Fomos a melhor equipa mas…”. E assim foi Portugal até ao presente ano. Este ano aconteceu o inverso. Foi o ano que ninguém acreditou, mas fomos campeões e foi o ano que passamos do “Pelo menos jogamos bem” para “QUE SE LIXE SE JOGAMOS BEM SOMOS CAMPEÕES”. Ao seja, quando saímos de uma competição como perdedores o que importa mesmo é a qualidade demonstrada, se saímos vencedores o que importa é a vitória.

Portugal é assim o campeão dos maus vencedores. Não é segredo nenhum, Portugal não foi nem de perto nem de longe a melhor equipa, até eu consigo ver e sou uma pessoa com nenhum interesse nesta modalidade. Os cânticos de vergonha que se entoaram dirigidos a Fernando Santos na fase de grupos passaram a festejos e felicitações e o que é verdade é que a qualidade da seleção não melhorou. Ficámos muito ofendidos com os comentários das empresas estrangeiras sobre a forma de jogo de Portugal, mas esquecemos que fomos os primeiros a criticar a seleção ainda na fase de grupos, com comentários por vezes piores que “nojentos”.

E, claro, que não podemos esquecer de falar do Éder, de demónio a anjo da guarda, de mau como tudo a herói nacional, um golo mudou por completo a opinião de uma nação quase completa sobre uma pessoa. Não haja dúvida que era algo um tanto ao quanto apetecível para os políticos da nossa praça.

Mas sinceramente não é a seleção que me faz não me interessar por futebol, é sim uma doença que padece uma grande porção da população portuguesa, o clubismo. Deveras, quando acaba as competições envolvendo a seleção, tornamo-nos quase animais de apoio ao nosso clube de tal forma fiéis por estes que nenhuma relação se compara. Em Portugal não podemos ter clube e gostar de futebol em geral, em Portugal quando somos de um clube só podemos gostar de um clube, graças a isto, programas como o Prolongamento, um programa com tanta qualidade intelectual que a Casa dos Segredos, são sucessos de audiência. Aquele pobre programa espelha a realidade das nossas conversas de café. Se somos do Benfica, não podemos ver faltas contra este, nem admitir que este jogou menos do que qualquer equipa que jogou com o Benfica. Para nós os jogadores do Benfica são os melhores do mundo e nenhum jogador de outra equipa portuguesa principalmente do Porto e do Sporting se compara à qualidade desses jogadores. Quem diz Benfica, diz qualquer um dos clubes portugueses.  Este clubismo estraga, na minha humilde opinião, o futebol, mas o que é verdade é que é gerador de grande receita por parte dos media o que faz com que estes propaguem estes mesmos comportamentos.

Em notas finais, como o nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa, gostava que o futebol fosse uma forma de nos divertirmos, uma forma de esquecermos os nossos problemas, uma festa, e não motivos de ódios e discussões mesquinhas. Quando é que vamos dar a mesma importância que damos ao futebol a assuntos como a educação, a saúde e a economia? Obviamente que isso só vai acontecer quando o ministro da educação começar os seus discursos com “Ó Sousa Martins…”.




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